Quanto dura uma promessa? Quatro mensagens.

Tinha a perfeita noção quando iniciei este blog que dificilmente iria escrever periodicamente. Não que tenha perdido o interesse no blog. Muito pelo contrário. Passou a ser uma das minhas visitas diárias. Apenas porque quero que este blog seja um espaço de qualidade e isso leva o seu tempo.

Introdução
Durante estas semanas de ausência, aproveitei para reler o livro «The 7 Habits of Highly Effective People» de Stephen Covey. Antes de entrar nos hábitos propriamente ditos, Covey introduz alguns conceitos importantes que passarei a descrever.

Motivação
Covey começa por motivar os leitores sobre o que os espera ao lerem e implementarem o que aprenderem com o livro.

  • aumentar a auto-estima e melhorar as relações pessoais;
  • aumentar a capacidade de influenciar os outros;
  • viver uma vida cheia de alegria, entusiasmo e paixão.

Aprender, ensinar, aplicar
A forma mais rápida de tirar partido da leitura do livro é aprender, ensinar e aplicar. Isto é, não basta ler o livro e ir aplicando o que se aprende. Recomenda que se ensine o que se aprendeu pois não há melhor forma de aprender que ter que ensinar o que se aprendeu. Isso obriga-nos a compreender para além do saber, tal como saber explicar é ir mais além do simples saber. Deve-se começar por ensinar aqueles que estão mais próximos de nós (colegas de emprego, por exemplo) e aqueles que amamos (mulher/marido, família, amigos). Aprender e ensinar é importante, mas é preciso aplicar, praticar.

Eficiente, eficaz
Escrever sobre este livro na língua de Camões recomenda que se contextualize o termo “Effective”. Traduzo-o por “eficiente” ou “eficaz”. E o que significa ser uma pessoa eficiente ou eficaz?
Com a ajuda de um bom dicionário, concluímos que se trata de alguém que produz os resultados desejados. Mas é suposto as pessoas produzirem resultados? Não será esta uma visão demasiado capitalista e/ou economicista do ser humano? Talvez.

Por esse motivo, prefiro ver uma pessoa “eficiente” como alguém cuja vida tenha sentido e que o sentido seja a própria vida. Como se falassemos de potência e acto e nos referissemos exactamente à mesma coisa.

Produção (P) e Capacidade de Produção (PC)
Covey define “effective” como a harmonia entre Produção (P) e Capacidade de Produção (PC) e dá o exemplo da galinha dos ovos de ouro. A produção (os resultados) são os ovos de ouro. A capacidade de produção é a galinha poder pôr ovos. Covey diz que é necessário harmonizar e optimizar esta relação P-PC, pois o máximo resultado só se obtém quando esta relação está em harmonia.
Se não vejamos. Se eu ao querer aumentar o número de ovos por dia, forçar a galinha a pôr mais do que um ovo por dia (aumentar o “P - Produção”), provavelmente a galinha não vai durar muito tempo. Se eu investir na galinha e tratar bem a galinha (aumentar o “PC - Capacidade de Produção) mas não se fizer por a galinha pôr ovos, de que adianta ter uma galinha que põe ovos de ouro? O ideal é tratar bem da galinha e fazer com que ela ponha ovos (”P” e “PC” em harmonia e optimizados).
Poderíamos aplicar uma analogia semelhante com um automóvel, por exemplo.

Outra analogia possível e que merece a nossa reflexão é a nossa saúde e o dinheiro que gastamos com ela, nomeadamente, a proporção entre o dinheiro gasto na cura comparado com o que é gasto na prevenção. Além disso, a esmagadora maioria dos custos de saúde são gastos nos últimos anos de vida, quando poderíamos ter investido ao longo desta na prevenção de doenças e tenho a certeza que no total gastar-se-ia muito menos.

Relações pessoais e banco emocional
Outro conceito importante que Covey introduz nos sete hábitos é o «Banco Emocional». Segundo ele, cada um de nós tem uma conta no banco emocional de cada pessoa. A conta neste banco é medida em “confiança”. É uma confiança que aumenta a flexibilidade e o à vontade na relação. Por exemplo, quem nunca trabalhou com alguém que à mínima circunstância estava a embirrar connosco? Quem não conhece alguém com quem temos que escolher bem as palavras para falar com ela de forma a não dar espaço a segundo sentidos ou implicarem connosco? Eu, infelizmente, conheço algumas. O que fazer com estas pessoas? Fazer depósitos na nossa conta do banco emocional.

Existem cinco grandes formas de fazer depósitos.
1) Pequenas cortesias. Um breve telefonema no dia de aniversário. Uma palavra simpática por algo que se fez. Um elogio sincero, entre muitos outros.
2) Manter uma promessa. Cumprir uma promessa é um bom depósito. Nunca devemos prometer aquilo que sabemos ou suspeitamos que não conseguimos cumprir. Esta é uma regra de ouro para qualquer pai/mãe na sua relação com os seus filhos.
3) Não defraudar expectativas. Por vezes não chegamos a prometer nada mas isso não implica que o outro não crie uma certa expectativa em relação a nós.
4) Ser íntegro. Evitar a duplicidade de carácter. Não falar nas costas de ninguém por exemplo. Ser e fazer aquilo que falo e falar aquilo que sou.
5) Pedir desculpa. Parece tão fácil pedir desculpa quando se erra, parece ser até um acto de fraqueza mas é precisamente o contrário. Só as pessoas com coragem conseguem pedir desculpa.

Tal como nos bancos, se é possível fazermos depósitos também existem “levantamentos” e estes devem ser evitados ao máximo. São precisamente o contrário dos depósitos: ser indelicado, falhar ao prometido, violar as expectativas, ter dupla personalidade e nunca pedir desculpa.

O que Covey nos diz é que devemos estar constantemente a fazer depósitos no banco emocional dos que nos rodeiam e não só. Por vezes podemos fazer um enorme depósito em quem não se conhece… por agora.

Paradigmas e mapas sociais
Paradigma é um modelo, uma teoria, uma explicação de algo. É também o modo como percepcionamos o mundo ou aquilo que nos rodeia. São as lentes de como vemos o mundo. Se o nosso paradigma está longe da realidade, as nossas atitudes, comportamentos e acções não serão as melhores e mais apropriadas. Sentir-nos-emos sempre perdidos, como se tentássemos encontrar uma localização numa cidade mas usando um mapa de outra qualquer. Este mapa é o nosso paradigma. Tal como nos mapas da cidade, por vezes os paradigmas estão errados.

Covey diz-nos que a maior e melhor mudança das nossas vidas não acontece quando mudamos as atitudes, os comportamentos ou os hábitos. A maior e melhor mudança surge quando mudamos o paradigma, porque espontaneamente isso muda a atitude, os comportamentos e os hábitos. Quase sempre a dificuldade na relação e comunicação com os outros existe porque não compreendemos o paradigma do outro.

É assim caso para nos perguntarmos: donde vem esses paradigmas? Como adquirimos estes mapas “errados”? Dos outros através de “mapas sociais”: «És sempre a mesma coisa», «Não fazes nada que tenha jeito», «És um irresponsável», «Não posso confiar em ti» são alguns exemplos de expressões que quase todos nós já ouvimos alguma vez, e que erradamente pode fazer com que nos identifiquemos com elas.
Também quando nos vimos ao espelho, nem sempre vimos reflectido aquilo que somos. Perguntem a uma anoréxica que se vê ao espelho se não tem uns quilos a mais e logo verão a resposta.

Quantos de nós acreditamos que temos um potencial ilimitado? Quantos de nós perante um desafio que nos é proposto a primeira resposta que nos vem à cabeça é «Eu consigo»? Se isso ainda não acontece é porque temos ainda algum caminho a percorrer.

Li noutro dia alguém que dizia que em cada 10.000 crianças que nascem, 9.999 têm um potencial ilimitado mas que com tempo, com a educação e socialização pelos adultos, se esquecem desse potencial.
Precisamos de redescobrir este potencial ilimitado que existe em nós. Este potencial está relacionado com a nossa segurança interior.

Fonte de segurança interior
Na relação Produção (P) - Capacidade de Produção (PC), muitos de nós acreditam que a nossa segurança vem da Produção. Por exemplo, “eu terei emprego porque produzo bons resultados” é um caso típico de segurança que vem da produção (P). Isso não é verdade. A verdadeira segurança vem da capacidade de produção (PC). Se eu tiver capacidade para produzir, seja neste ou noutro emprego em produzirei resultados e isso dá-me segurança.

Esta ilusão da fonte da segurança faz com que evitemos e receemos a mudança. Se eu tenho um núcleo interno duro e forte, baseado nos meus valores e nas minhas capacidades, então não me importo que aquilo que me é externo mude, porque internamente eu sou forte e capaz. Se pelo contrário eu internamente sou frágil, vou ao sabor do vento e dos outros, então, para não me sentir perdido, é bom que aquilo que me rodeia não mude. Neste segundo caso, se de repente fico desempregado, se acaba o casamento ou namoro, toda a vida parece ficar sem sentido.
Como queremos ser internamente: fortes ou frágeis?

Termino assim a introdução a alguns conceitos que encontramos nos sete hábitos. Quero alertar-vos para o facto de o livro e os sete hábitos não serem complexos e que esta introdução é essencial embora mais extensa que a explicação de alguns dos sete hábitos. Nunca é demais referir que aquilo que escrevo sobre o livro «The 7 Habits of Highly Effective People» corresponde à interpretação que faço do que li e pode ser algo diferente da interpretação do autor e de outras pessoas.

Um abraço,
Luís

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